A expansão do ensino técnico nas escolas estaduais, a redução da extrema pobreza, mecanismos para aumentar a eficiência do gasto público e os resultados obtidos no enfrentamento ao tráfico de drogas foram algumas das experiências de Mato Grosso do Sul apresentadas nesta segunda-feira (24), em São Paulo, pelo governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição.
As iniciativas fizeram parte da participação de Riedel no lançamento oficial do Pacto Brasil de Futuro, agenda nacional que pretende reunir governos, especialistas, iniciativa privada e sociedade civil em torno da formulação de políticas públicas de longo prazo, com foco em eficiência, inovação e resultados.
O governador comandou o painel “Pacto Brasil de Futuro: Perspectivas dos Estados”, no qual expôs políticas desenvolvidas nos últimos anos em Mato Grosso do Sul e defendeu que parte das soluções adotadas no Estado pode contribuir para o debate nacional sobre gestão pública, desenvolvimento econômico e políticas sociais.
Diante de lideranças públicas, especialistas e representantes do setor privado e da sociedade civil, Riedel apresentou um modelo de governo baseado na integração entre diferentes áreas da administração. Segundo ele, a estratégia procura combinar crescimento econômico, formação profissional, inclusão social, equilíbrio das contas públicas e segurança.
Gestão por metas e qualidade do gasto
Um dos pontos destacados pelo governador foi a busca por maior eficiência na aplicação dos recursos públicos. Riedel afirmou que, desde o início da gestão, o governo estadual estruturou um planejamento estratégico com participação de diferentes setores da administração, procurando superar uma atuação fragmentada entre secretarias.
Nesse modelo, as políticas são tratadas de maneira transversal, com diferentes áreas do governo compartilhando objetivos, metas e responsabilidades.
Entre os instrumentos utilizados está o chamado contrato de gestão, por meio do qual secretários estaduais apresentam projetos e metas previstos para cada ano. O cumprimento desses compromissos passa a ser acompanhado ao longo do exercício e posteriormente avaliado.
Para Riedel, o debate sobre capacidade de investimento dos governos não pode ser limitado à disponibilidade de dinheiro. Também precisa considerar a maneira como os recursos são administrados.
“Acredito que muitas vezes não é falta de recurso e sim falta eficiência no gasto do recurso. Nosso foco o tempo todo é estancar estas ineficiências e ter um olhar sobre a qualidade do gasto. Não é uma tarefa fácil, mas para gente sempre foi prioridade”, afirmou.
A avaliação apresentada pelo governador coloca a eficiência administrativa como parte da própria capacidade do Estado de ampliar políticas públicas. Na prática, o argumento é que reduzir desperdícios e estabelecer metas pode abrir espaço para investimentos sem depender exclusivamente do aumento da arrecadação.
Crescimento aumenta pressão por trabalhadores qualificados
A qualificação profissional foi outro eixo da apresentação. Riedel relacionou a expansão dos cursos técnicos da rede estadual ao ritmo de crescimento da economia sul-mato-grossense e à necessidade de preparar trabalhadores para as novas oportunidades abertas no mercado.
Segundo os números citados pelo governador, Mato Grosso do Sul vem registrando crescimento anual entre 4% e 6%, acima da média brasileira, ao mesmo tempo em que apresenta taxa de desemprego de 2,7% e ocupa a quinta posição entre as maiores rendas do País.
Esse cenário, argumentou, produz um desafio diferente daquele enfrentado por regiões marcadas principalmente pela falta de vagas: existem oportunidades, mas é preciso garantir trabalhadores capacitados para ocupá-las.
A resposta adotada pelo Estado foi ampliar a educação profissional dentro da própria rede pública.
“Fizemos a opção de massificar a qualificação profissional na rede estadual de ensino. Cerca de 52% dos alunos do ensino médio participam de cursos técnicos dentro do ciclo médio, em mais de 92 cursos. Estamos preparando toda uma nova geração no curto prazo para preencher estas oportunidades”, disse.
A estratégia aproxima a formação escolar das transformações econômicas pelas quais Mato Grosso do Sul passa. Ao incorporar cursos técnicos ao ensino médio, o governo procura reduzir a distância entre a conclusão da educação básica e o ingresso dos jovens no mercado de trabalho.
Extrema pobreza cai e desafio passa a ser erradicação
Ao tratar da área social, Riedel afirmou que os indicadores de extrema pobreza apresentaram melhora nos últimos anos.
Conforme os dados citados durante o encontro, o percentual da população nessa condição recuou de 2,6% para 1,7%.
O governador sustentou, entretanto, que a redução do índice não encerra o desafio. A meta agora, segundo ele, deve ser identificar as famílias que permanecem em situação de vulnerabilidade extrema e construir caminhos para que consigam ampliar renda e autonomia.
“Temos o foco em resgatar estas famílias, abrir novas oportunidades. Podemos erradicar a extrema pobreza quando se identifica e mapeia. Vamos conseguir”, afirmou.
A abordagem defendida por Riedel associa os programas de proteção social à criação de oportunidades econômicas. Nesse desenho, localizar as famílias em situação mais vulnerável permite direcionar políticas públicas de maneira mais precisa e acompanhar a trajetória de quem precisa romper o ciclo de pobreza.
Fronteira coloca crime organizado no centro do debate
A localização geográfica de Mato Grosso do Sul também apareceu na apresentação como um dos principais desafios estruturais do Estado. Com 1.312 quilômetros de fronteira seca, a região está inserida em rotas utilizadas por organizações criminosas para o tráfico internacional de drogas.
Mesmo diante dessa extensão territorial, Riedel destacou os resultados obtidos pelas forças estaduais de segurança.
Segundo ele, somente no primeiro semestre foram apreendidas 315 toneladas de drogas em Mato Grosso do Sul.
O impacto do narcotráfico também aparece no sistema prisional. De acordo com o governador, aproximadamente 40% da população carcerária do Estado está relacionada ao tráfico internacional.
Para Riedel, porém, o enfrentamento a organizações que operam além das fronteiras estaduais exige uma articulação federativa mais ampla. Ele avaliou que existe bom relacionamento institucional entre forças estaduais e federais, mas defendeu uma coordenação mais estruturada das operações.
“A gente sente uma falta absurda de coordenação das forças federais com as estaduais. O relacionamento é excelente, mas falta esta relação mais coordenada, para fazer frente ao crime organizado”, afirmou.
O governador ampliou a crítica para outras áreas da administração pública e disse perceber dificuldades semelhantes na integração entre União, estados e municípios em setores como saúde e educação.
“Também sentimos falta desta coordenação federativa em áreas como educação e saúde”, acrescentou.
A declaração coloca a cooperação entre diferentes níveis de governo como um dos temas centrais apresentados por Mato Grosso do Sul no encontro. Em áreas nas quais problemas ultrapassam limites municipais ou estaduais – como segurança de fronteira, assistência em saúde e políticas educacionais -, Riedel defendeu maior integração institucional.
Pacto busca transformar experiências estaduais em agenda nacional
O Pacto Brasil de Futuro foi concebido justamente com a proposta de reunir experiências de diferentes governos e setores da sociedade para subsidiar políticas públicas de longo prazo.
A iniciativa é apresentada como uma construção colaborativa envolvendo especialistas, gestores públicos e representantes da iniciativa privada. O objetivo é ajudar governos a definir prioridades, aperfeiçoar modelos de gestão e criar políticas capazes de produzir resultados que ultrapassem ciclos administrativos.
A agenda está estruturada em cinco grandes eixos: desenvolvimento econômico e territorial, Estado eficiente, desenvolvimento social e de renda, equilíbrio fiscal e segurança pública.
Também estão previstas áreas consideradas transversais ao funcionamento dessas políticas, entre elas comunicação e engajamento, inovação e desenvolvimento de lideranças.
Ao participar do lançamento, Mato Grosso do Sul levou para o debate nacional experiências que atravessam justamente esses diferentes campos. Da preparação de jovens para um mercado de trabalho aquecido ao acompanhamento de metas administrativas, passando pelo combate à pobreza e pelas dificuldades impostas por uma extensa fronteira internacional, Riedel apresentou o Estado como um laboratório de políticas que procuram conciliar crescimento econômico, eficiência pública e inclusão social.
A mensagem levada a São Paulo foi de que bons indicadores econômicos, isoladamente, não bastam. O desafio colocado pelo governador é transformar crescimento em qualificação profissional, capacidade de investimento, redução das vulnerabilidades e melhoria dos serviços oferecidos à população — e, ao mesmo tempo, construir uma coordenação federativa capaz de enfrentar problemas que nenhum Estado consegue resolver sozinho.