No Assentamento Andalucia, em Nioaque, dez famílias passaram a produzir alimentos, recuperar nascentes e monitorar a fauna silvestre após um ano de execução do projeto “Mãos Manejando Vida em Seus Quintais” .
A iniciativa surgiu a partir da dificuldade enfrentada pelos moradores para manter a produção agrícola, diante do aumento da presença de animais silvestres nas áreas de cultivo. A pressão da fauna, associada a mudanças ambientais, levou parte das famílias a reduzir ou até abandonar o plantio.
“A primeira colheita é deles. O que sobra é o que a gente está tirando pra nós”, relata Rosana Claudina, conhecida como Preta, liderança comunitária.
Quintais cercados garantem produção
Para enfrentar o problema, o projeto implantou quintais agroecológicos cercados, com até um hectare cada, permitindo a produção protegida sem impedir a circulação da fauna no restante dos lotes.
Entre maio de 2024 e o início de 2025, as famílias receberam estrutura com cercamento, irrigação, insumos e mudas. A produção inclui hortaliças, raízes, frutas e grãos, como alface, mandioca, milho, feijão, abóbora e banana.
Apesar de dificuldades, como a falta de apoio mecânico para preparo do solo, as famílias mantiveram o plantio com apoio coletivo.
Troca de sementes e produção compartilhada
Durante a execução, a troca de sementes entre os moradores ocorreu de forma espontânea, fortalecendo a produção e a cooperação local.
“Se eu tenho uma variedade de feijão verde, eu vou plantar um pouco e vou doar um pouco para outra”, explica a engenheira florestal Nélida Tainá.
Em alguns casos, a produção inicial foi compartilhada com a comunidade. “A terra deu pra gente, né? […] A gente divide com a comunidade”, afirma a agricultora Maria José.
Recuperação ambiental e monitoramento da fauna
Além da produção agrícola, o projeto viabilizou o plantio de 5.700 mudas nativas em áreas de nascentes ligadas ao Ribeirão Taquaruçu, contribuindo para a recuperação ambiental.
O monitoramento com câmeras registrou mais de 20 espécies de fauna silvestre em apenas dois meses, incluindo tamanduá, tatu, anta e diversas aves.
Renda e continuidade
Com a produção consolidada, parte das famílias já comercializa excedentes de forma informal. A expectativa é ampliar o acesso a programas institucionais, como compras públicas.
“Meu filho Adriano ajudou a gradear no arado, no cavalo, juntamente com o meu esposo. Uma benção”, relata a agricultora Francisca Coelho Rosa.
Demanda por políticas públicas
Mesmo com os resultados, lideranças locais apontam a necessidade de políticas públicas voltadas a famílias que convivem com a fauna silvestre.
“A gente precisa começar a pensar em como estruturar uma política pública que venha amparar as famílias”, afirma Preta.
O projeto é executado pela Ecoa em parceria com o CEPPEC, com financiamento do Fundo ECOS/ISPN e apoio de organizações internacionais.
Da Redação
Foto: Assessoria