05 de Jan, 2026
Obras da Rota Bioceânica avançam para conectar o Atlântico ao Pacífico
30 de Dez, 2025

Por Toninho Ruiz

A maior obra de integração logística em curso na América do Sul avança para transformar, de forma definitiva, o mapa do comércio continental. O Corredor Vial Bioceânico — oficialmente denominado Rota de Integração Latino-Americana (RILA) — atravessa quatro países (Brasil, Paraguai, Argentina e Chile) e tem como objetivo ligar o Porto de Santos, no Atlântico, aos portos chilenos de Mejillones, Antofagasta, Tocopilla e Iquique, no Pacífico.

Trata-se de um megaprojeto estratégico, concebido para reduzir distâncias, tempo e custos logísticos, ampliando a competitividade dos produtos sul-americanos no mercado asiático. Com investimentos bilionários e obras simultâneas em diferentes frentes, a Rota Bioceânica caminha para se consolidar como um novo eixo estruturante do desenvolvimento regional.

Investimentos e integração em larga escala

A viabilização do corredor exigiu aportes significativos, especialmente do Brasil e do Paraguai. Em território paraguaio, a rota corta aproximadamente 580 quilômetros, ligando Carmelo Peralta a Pozo Hondo. O país vizinho investe cerca de US$ 1 bilhão, contemplando a construção da ponte internacional e a pavimentação de extensos trechos rodoviários, incluindo a estratégica PY-15, na região da Picada 500.

Acompanhando este projeto desde 1990, este repórter relata, ao final de 2025, o estágio atual das principais obras que materializam a integração física do continente.

Ponte Internacional: o elo decisivo

A Ponte Internacional Porto Murtinho–Carmelo Peralta, sobre o rio Paraguai, é considerada a obra mais estruturante da Rota Bioceânica. Em dezembro de 2025, os trabalhos alcançaram cerca de 80% de execução.

Com 1.294 metros de extensão, 354 metros de vão sobre a calha do rio e 35 metros de altura, a ponte permitirá o tráfego seguro de veículos de carga e passageiros, consolidando a ligação entre Brasil e Paraguai. O empreendimento é financiado pela margem paraguaia da Itaipu Binacional.

Avanços no Brasil

No lado brasileiro, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) executa a restauração e revitalização da BR-267, no trecho entre Alto Caracol e Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul. Paralelamente, avançam as obras dos acessos rodoviários à nova ponte internacional.

O trecho de 13,1 quilômetros, atualmente com cerca de 30% de execução, é realizado pelo Consórcio PDC Fronteira, formado pelas empresas Construtora Caiapó, DP Barros Produções e Construção e Paulitec Construções. O investimento é de R$ 472 milhões, com recursos do Novo PAC, do governo federal.

Paraguai acelera obras no Chaco

No Paraguai, o trecho da PY-15 que liga Carmelo Peralta a Loma Plata já foi inaugurado. Outros segmentos seguem em ritmo acelerado, especialmente os 220 quilômetros entre Mariscal Estigarríbia e Pozo Hondo, executados por quatro consórcios.

As obras utilizam técnicas avançadas de melhoramento de solo, adequadas às condições desafiadoras do Chaco Paraguaio, garantindo durabilidade e segurança à pavimentação.

Desafios e compromissos na Argentina e no Chile

Na Argentina, os trabalhos avançam de forma mais lenta. Persistem gargalos no acesso entre Misión La Paz e Santa Victoria, trecho de cerca de 30 quilômetros ainda sem pavimentação, além da necessidade de melhorias e acostamentos na Rota Nacional 34, entre Santa Helena, Orán e Tartagal.

O governo do presidente Javier Milei comprometeu-se, em reunião com o presidente paraguaio Santiago Peña, a executar essas obras com recursos do FONPLATA, estimados em US$ 100 milhões.

No Chile, um plano de ação lançado em abril de 2025 prevê 22 projetos estruturantes, incluindo melhorias viárias e a modernização da infraestrutura portuária de Mejillones, Antofagasta e Iquique, fundamentais para o escoamento da produção sul-americana rumo ao Pacífico.

Um “Canal do Panamá terrestre”

A expectativa dos governos e do setor produtivo é que a Rota Bioceânica, quando totalmente concluída e operacional — previsão para o final de 2027 —, funcione como um verdadeiro “Canal do Panamá terrestre”, encurtando caminhos, integrando economias e impulsionando o desenvolvimento de toda a região central da América do Sul.

Mais do que uma obra de infraestrutura, a RILA representa a materialização de um antigo sonho continental: a integração física, econômica e estratégica entre o Atlântico e o Pacífico.




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