As rotinas de trabalho, isolamento, resistência e aprendizado de mulheres que viveram em fazendas da Nhecolândia, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, estão no centro do livro “Olhares – Histórias de Mulheres Pantaneiras da Nhecolândia”, da escritora e pecuarista Gabriela Bacchi de Araujo Guimarães.
A obra reúne relatos de 26 mulheres que vivem ou viveram em fazendas pantaneiras e busca registrar a participação feminina na construção da memória cultural do bioma. O lançamento está previsto para agosto, em Campo Grande.
Entre as personagens retratadas estão Leonice Clemente Vidal, de 62 anos, e Ana Paula Clemente Lemes, de 33. As duas compartilham experiências marcadas por trabalho intenso, dificuldades de acesso, falta de estrutura e ligação profunda com o território.
Vida no Pantanal exigia adaptação
Natural de Rio Verde de Mato Grosso, Leonice chegou ao Pantanal aos 20 anos. Ela lembra que encontrou uma realidade distante da vida urbana, sem energia elétrica, água encanada ou transporte fácil.
Durante as cheias, o deslocamento dependia de tratores. Na seca, era preciso caminhar longas distâncias em busca de água.
Mesmo com as dificuldades iniciais, Leonice construiu família e criou vínculos com o lugar e com as pessoas da região.
“O começo foi difícil e o isolamento despertava saudades da minha família. Porém, com o passar dos anos, eu aprendi a gostar muito do Pantanal e das pessoas com quem convivi. Criei laços de amizade e aprendi muito com a sabedoria dos mais velhos”, relatou.
Para ela, ver a própria trajetória registrada em um livro tem significado especial.
“Eu fiquei muito feliz pelo convite e por minha experiência ser lembrada a ponto de fazer parte de um livro. Nos últimos anos, percebi que está cada vez mais difícil encontrar pessoas interessadas em morar e trabalhar no Pantanal, por isso acho importante contar nossas histórias”, afirmou.
Trabalho feminino começava antes do amanhecer
Nascida em Corumbá, Ana Paula Clemente Lemes teve o primeiro emprego como cozinheira em uma fazenda pantaneira. Ela foi para a propriedade para ajudar a tia nos serviços domésticos e, em pouco tempo, assumiu a cozinha, onde preparava refeições para mais de 20 trabalhadores.
Segundo Ana Paula, a rotina começava ainda de madrugada, antes da saída dos peões para o campo.
“Meu tio foi muito importante no começo do meu ofício e me acordava de madrugada para preparar o desjejum dos homens que trabalhavam no campo”, contou.
Ela afirma que o trabalho das mulheres nas fazendas ainda é pouco reconhecido.
“Por várias vezes me disseram que a atuação da mulher é mais leve no Pantanal, mas não é assim, não. A cozinha é a primeira a começar e a última a terminar. Os homens encerram as atividades no sábado à tarde, enquanto nós ficamos na lida de domingo a domingo”, disse.
Para Ana Paula, participar do livro é uma forma de dar visibilidade a uma atuação essencial no cotidiano das propriedades rurais.
“Me senti muito feliz em contar minha história, já que o trabalho feminino também é muito importante no dia a dia do Pantanal”, afirmou.
Memória oral vira registro cultural
Além das histórias de vida, “Olhares” traz capítulos sobre o bioma pantaneiro, a história local, tradições regionais, receitas típicas preparadas em fazendas e comitivas e um glossário com expressões usadas na região.
Gabriela Bacchi afirma que, ao longo das entrevistas, identificou nas personagens a capacidade de transformar dificuldades em aprendizado e pertencimento.
“Sempre me encanto com a sabedoria delas diante das coisas simples. Transformam o pouco em abundância e o simples em essencial”, afirmou.
Para a autora, registrar essas memórias é uma forma de reconhecer mulheres que ajudaram a manter tradições, sustentar famílias e preservar a identidade pantaneira.
“Quero que o leitor feche o livro com a sensação de ter estado no Pantanal e de compreender que o verdadeiro patrimônio desse lugar está nas pessoas que constroem sua história todos os dias”, concluiu.
Da Redação
Foto: Assessoria