03 de Nov, 2026
Lista de boicote a comerciantes em Jardim e Guia Lopes provoca repúdio e remete a prática da Alemanha nazista
28 de Out, 2026

A circulação de uma lista de supostos comerciantes petistas de Jardim e Guia Lopes da Laguna, acompanhada de incentivos ao boicote, provocou a reação de empresários que tiveram seus estabelecimentos associados a posicionamentos políticos sem autorização.

O material, divulgado em grupos de mensagens e redes sociais após a eleição presidencial de domingo (25), foi atribuído a pessoas ligadas ao bolsonarismo e levou pelo menos dois estabelecimentos a publicar notas de repúdio.

O Mercado Estrela Guia e a Espetaria do Chicão, empresas tradicionais da região, negaram qualquer vinculação político-partidária institucional e criticaram a tentativa de transformar divergências políticas em prejuízos comerciais.

Em nota divulgada na terça-feira (27), o Mercado Estrela Guia esclareceu que não autorizou a inclusão de seu nome na lista e que não reconhece o posicionamento político que lhe foi atribuído.

“Nossa empresa é apartidária e respeita a liberdade de opinião de cada pessoa. Nossas portas estão abertas a todos os clientes, colaboradores e parceiros, sem qualquer distinção”, destacou o estabelecimento.

A empresa também afirmou que não pretende adotar medidas judiciais, embora considere que elas poderiam ser cabíveis. Segundo a nota, a lista revela mais sobre seus autores do que sobre os comerciantes mencionados.

A Espetaria do Chicão, que atua há mais de 20 anos em Jardim, também repudiou a divulgação de informações que considera falsas e os pedidos de boicote compartilhados nas redes sociais.

“Não compactuamos com a polarização que divide os brasileiros. Nosso único partido é o trabalho, nosso único lado é o do cliente”, afirmou o proprietário José Augusto, conhecido como Dedé.

Diferentemente do Mercado Estrela Guia, a Espetaria do Chicão anunciou que tomará as medidas cabíveis para preservar a reputação da empresa e a história construída ao longo de duas décadas, ressaltando que a exposição pode prejudicar o sustento de sua família e de seus colaboradores.

 

Boicote remete a episódio da Alemanha nazista

A divulgação de listas para identificar comerciantes e estimular a população a deixar de frequentar seus estabelecimentos possui um antecedente histórico marcante. Em 1º de abril de 1933, o regime nazista de Adolf Hitler organizou um boicote nacional contra lojas, empresas e profissionais judeus na Alemanha.

Na ocasião, integrantes das tropas de choque nazistas permaneceram diante dos estabelecimentos, enquanto cartazes e campanhas de propaganda orientavam os consumidores a não comprar de judeus. A ação integrou o início de uma política sistemática de perseguição antissemita que, nos anos seguintes, culminaria no Holocausto.

Embora os episódios tenham contextos e gravidades profundamente diferentes, existe uma semelhança no mecanismo utilizado: identificar publicamente comerciantes por uma característica atribuída a seus proprietários e incentivar sua exclusão econômica.

Na Alemanha de 1933, o boicote foi promovido por um regime ditatorial como parte de uma política de Estado. Em Jardim e Guia Lopes da Laguna, trata-se de uma lista difundida nas redes sociais, relacionada a supostas preferências partidárias, sem comprovação de participação institucional ou identificação segura de seus autores.

A comparação histórica não equipara os acontecimentos, mas chama a atenção para os riscos da intolerância quando divergências ultrapassam o debate político e passam a atingir a reputação, o trabalho e a subsistência de pessoas.

Ao repudiarem a lista, o Mercado Estrela Guia e a Espetaria do Chicão defendem um princípio fundamental da convivência democrática: ninguém deve ser exposto, constrangido ou prejudicado comercialmente por convicções políticas reais ou presumidas.

Da Redação

Foto: Enciclopedia do Holocausto

 



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